segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O Assédio Moral e Amigas de Jó


Servidor é trabalhador? Para trabalhar, servidor tem direito a ter sua saúde física e mental resguardadas e preservadas? Só para esclarecer!

Ironia não? Perdemos não só a saúde naquele serviço de saúde do trabalhador como a vontade de prosseguir em nossa carreira. Como cristã, a inspiração veio através do apóstolo Paulo: “quando pareço fraco é que sou forte”.
Quando aconteceu a transferência para o centro de referência, corria nas diferentes esferas de comunicação do trabalhador (ou "Rádio Peão"), de que era um lugar difícil de trabalhar. 
Que outra opção senão aceitar o que nos havia sido imposto? Sim, porque gestor não pergunta onde você contribuirá mais de acordo com o seu perfil, formação, aptidão, afinidades e preferências
Ele simplesmente usa de seu poder e... Determina. Faz cumprir. Nós, em vão questionamos. Nos submetemos e... Obedecemos. Lembra a música do Zé Ramalho, 'Vida de Gado'.

Tantas foram as situações constrangedoras vividas e ou presenciadas naquele local de trabalho! Rompantes de total abuso de poder e, por palavras e gestos recorrentes, o inconsequente assédio moral. Os de fora, assistiam e, calados, consentiam. Mudos, retornavam às suas zonas de conforto e “proteção” (sendo também vítimas por conta da lei do silêncio). Atitudes solidárias em favor do colega humilhado? Nem pensar! Total omissão. Nada a declarar!
A data da pior das humilhações no local de trabalho foi próxima ao carnaval em fevereiro de 2006. Diante de uma pequena platéia, formada por três servidoras, que assistiam caladas a leitura de uma carta onde a humilhação, o nó na garganta, a impotência,  o absoluto e desmedido abuso de poder, dava conta dos "motivos" de nossa transferência, finalizando com um pedido à nossa nova chefia: "compaixão por tão imprestável e desqualificado trabalhador." Nossa honra e dignidade, jogadas  no cesto de lixo sem separação com a casca de banana ou o resto do lápis apontado. De posse da cópia da carta, assinada e carimbada, procuramos ajuda de uma advogada. A advogada, após ouvir o relato, em meio ao choro, a dor na alma e a vergonha, nos indicou uma profissional com referência em atender casos de assédio moral no ABC: uma psiquiatra.

A música de Gonzaguinha soava como trilha sonora desde a leitura da tal carta. Lembrávamos da canção na voz de Fagner, com seu sotaque carregado:
“Um homem se humilha/Se castram seu sonho/Seu sonho é sua vida/E vida é trabalho...E sem o seu trabalho/O homem não tem honra/E sem a sua honra/Se morre, se mata...Não dá prá ser feliz/Não dá prá ser feliz...”
Parecia esquete de teatro do oprimido, tantas vezes encenada.

Mas afinal, o que é assédio moral?
Segundo o trabalho realizado pela doutora Margarida Barreto:
“São condutas externas que provocam na vítima o sentimento de humilhação, ofensa, rebaixamento, degradação, entre outras.”
"O assédio moral, em sua silenciosa investida também pode apresentar sintomas que vão desde crises de choro imotivadas até tentativas de suicídio."

Então, é ficarmos atentos as alterações e aos sinais que o nosso próprio corpo apresenta e, conversarmos com familiares, amigos, colegas de trabalho e, até um especialista, a princípio um psicólogo. Se persistirem e até acentuarem sintomas como: alterações de sono (sonolência ou insônia), depressão, dores de cabeça, passar a ingerir bebida alcoólica ou outro tipo de hábito entendendo como dependência, é hora de procurar um psiquiatra. Este profissional pode, com certeza, tratar de sua saúde mental e propor através de tratamento medicamentoso, uma vida saudável novamente.

Agradecimentos:
Nossa maior vitória sobre o Assédio Moral, foi estudar sobre o assunto e, nunca mais ser intimidado por quem quer que seja, que pretenda abusar do poder que tem para nos adoecer.
Nossa maior vitória foi passar por este vale de dor e, levantar a cabeça e ser referência no assunto até para contribuir com outros colegas que padeçam deste mal em seus respectivos locais de trabalho.
Nossa maior vitória foi ter a certeza de que Deus cuida e cuidou de detalhes na nossa recuperação.
Agradeço a Deus, por nos fortalecer neste período e por permitir que o choro se tornasse em riso, entendendo que este riso é a minha família.
À todos os colegas de trabalho do centro de referência, ainda que tenha lhes faltado coragem para denunciar.
Aos “amigos de Jó”, que embora não acreditassem, contemplaram nossa força sendo restaurada dia após dia. Ressoando: “Combati o bom combate e Venci... Guardei a fé!”/Chega de Humilhação.

Participamos em 2004, de um dia de formação no SINDUSP (Sindicato dos Trabalhadores da Universidade de São Paulo), onde o tema: Assédio Moral, foi abordado de maneira clara, objetiva e com relatos das vítimas.As palestras e discussões versaram a partir do trabalho desenvolvido pela Doutora Margarida Barreto, intitulado: Assédio Moral, Uma Jornada de Humilhações!
Recentemente, dia 21de Outubro, aproveitando a Semana do Servidor, a mestre e doutoranda em doença mental no trabalho, nos presenteou com uma brilhante e oportuna palestra com o tema:
Saúde Mental no Trabalho: Vamos Falar de Assédio Moral?

A partir deste último evento, uma proposta antiga de um Núcleo de Apoio as Vítimas de Assédio Moral aos trabalhadores do setor público, seja regime estatutário, CLT, terceirizado, voluntário, enfim todos que estão expostos as "radiações" do abudo de poder, foi retomada inclusive com aval da própria doutora Margarida Barreto e outros profissionais que entendem que não é possível que se perpetue esta relação perversa do trabalho que adoece e trata indignamente o trabalhador

VAMOS DIZER NÃO AO ASSÉDIO MORAL NO SERVIÇO PÚBLICO! 
DENUNCIAR É EXIGIR MUDANÇAS URGENTES.

Maria Grizante.


Contate-nos pelo e-mail: grizanteas@yahoo.com.br ou pelo facebook: Maria Grizante.

sábado, 22 de outubro de 2011

Saúde Mental no Trabalho: Vamos Falar de Assédio Moral?
Evento realizado nesta última sexta feira (21/10/2011), 9h00 no Auditório da Câmara Municipal.
Muito obrigado a todos que participaram e aprenderam um pouco mais.
Muito obrigado a Mestre e Doutora Margarida Barreto, pesquisadora de renome que veio nos trazer informações acerca do que vem acontecendo nas relações de trabalho no Brasil e pelo mundo afora. A disseminação da prática que vem adoecendo trabalhador, interrompendo sonhos e, o que é assustador, causando além de inúmeros males á saúde, até mortes por suicídio no trabalho.
Obrigado por nos orientar através do conhecimento adquirido e compartilhado, de práticas absurdamente abusivas e praticados sem o menor pudor pelos detentores do poder, seja ele público, privado, ONGs, sindicatos, igrejas e toda e qualquer instituição onde haja superior e subordinado. Nestas relações, são dispensáveis os abusos de poder e a violência do assédio sexual, moral, desinteligente e que provoca tanto dano e destruição à vida de um ser humano.
Obrigado pelo apoio de entidades sérias e comprometidas com o outro como o Viva Melhor! IPES - Instituto Paulista de Educação e Saúde. Movimento pela Paz e Justiça Social, que colaboraram desde na organização e e finalização do evento. 
Pela ex-vereadora, a advogada Heleni de Paiva.
Parabéns e obrigado a todos pela sensibilidade.
A Palavra chave É respeito!



Núcleo de Apoio as Vítimas de Assédio Moral

O dia 02 de Maio, logo após o Dia do Trabalho, é lembrado como o Dia de Combate ao Assédio Moral. A data, porém passa despercebida inclusive por alguns sindicatos, pois é “saia justa” falar de assédio moral quando as próprias entidades que deveriam defender o trabalhador cometem abusos com os seus trabalhadores, com diretores e com os que ele, em tese, deveria representar, pois tratam com descaso e certa falta de interesse em sequer ouvi-los em suas queixas e dores. Sindicato também adoece!

Quem já sofreu, sabe! Quem está sofrendo tem a partir de agora, a nossa solidariedade e total apoio. Mas, o mais triste, é que ninguém está isento de vir a sofrer de assédio moral em algum momento nas relações de trabalho. Para coibir é necessário dar visibilidade. Em outras palavras: Denunciar. Denunciar. Denunciar.

Mas o que é mesmo Assédio Moral?

É o constrangimento do trabalhador por chefias imediatas, encarregados, gerentes, diretores, enfim, toda sorte de superiores e até colegas de trabalho, repetida e constantemente, com o principal objetivo de ferir a dignidade, a saúde física, mental e até social, uma vez que prejudica as relações fora do campo do trabalho (família, escola, faculdade, entre outros), com prejuízos não só na vida profissional como além dela. É a exposição frequente do funcionário a situações humilhantes e vexatórias durante sua jornada de trabalho.

Exemplos de Assédio Moral:

Ø  Fazer ameaças constantes de transferências e, no caso dos colegas servidores no regime CLT, até demissões.
Ø   Ofender de forma contundente não só o profissional, mas a pessoa na sua totalidade e essência.
Ø  Exigir uma sobrecarga de trabalho e/ou dificultar sua execução.
Ø  Restringir e isolar o funcionário no convívio com os demais colegas, impedindo-o desde conversar, cumprimentar até fazer refeições coletivas para evitar contato.
Ø  Envergonhar o funcionário com rompantes de desmoralização pública (o assediador tem necessidade de ser notado).
Ø  Desvalorizar o trabalho realizado ridicularizando o trabalhador frente aos demais colegas.
Ø  Cobrar tarefas muito diferentes das atividades originais, desconsiderando dificuldade superior ou inferior ao conhecimento/função do funcionário com intuito de humilhar e hostilizar o trabalhador.
Ø  Semear a discórdia entre os próprios colegas fazendo com que estes tenham atitudes de desprezo e desrespeito para com o colega assediado.
Ø  Atemorizar os que estão em estágio probatório com avaliações com o único intuito de prejudicar o trabalhador comprometendo seu potencial e até sua carreira profissional.
Ø  Espalhar boatos sobre a saúde física e mental do funcionário, além de sua conduta moral para que este fique cada vez mais acuado, isolado e desacreditado.
Ø  Sugerir que peça demissão ou, em sendo o caso, até entrar com pedido de aposentadoria proporcional.

Consequências do Assédio Moral:

Ø Dignidade ferida, por conseguinte identidade, relações afetivas e sociais comprometidas.
Ø Crises de choro nas mulheres, aumento ou perda de peso, hipertensão arterial, depressão seguida ou não de síndrome do pânico, perdas frequentes de voz.
Ø Incapacidade para o trabalho que pode levar ao desemprego, além do consumo abusivo de álcool e drogas, seguidos de sentimentos de vingança e por fim chegar até ao suicídio.                         
Ø Sentimento de vergonha, revolta, mágoa, culpa indignação, raiva, apatia e, vingança. 

Como Combater o Assédio Moral:

Ø Dar visibilidade compartilhando com demais colegas as situações de assédio sofrido.
Ø Participar os familiares sobre suas angústias e dificuldades no trabalho.
Ø Denunciar primeiro no RH, posteriormente procurar ajuda de um médico de confiança, orientar-se com um advogado, informar sua entidade de classe que (em tese) o representa, lavrar um B.O. (boletim de ocorrência) e por fim, denunciar no MPT - Ministério Público do Trabalho – que também existe para defender o trabalhador.
Ø E a principal de todas as medidas no combate a este mal é tirar a ‘bindagem’ do assediador, denunciando-o e não atendendo a sua voraz necessidade em tripudiar sobre você quando este o solicitar em sua sala ou departamento. Atende-lo sempre na companhia de um colega de trabalho ou mesmo de um dirigente sindical que realmente esteja e seja comprometido com o trabalhador em sua dor, acercando-se de que este representante realmente o representa.
Ø Por fim, leia. Informe-se sobre recentes leis para coibir o assédio moral no trabalho, seja ele público ou privado, terceiro setor, enfim. Participe de fóruns de discussão e debate. Seminários. Palestras. Blogs. Informações de situações com jurisprudência ocorrida no âmbito das relações de trabalho.

O Núcleo de Apoio as Vítimas do Assédio Moral está sendo construído a muitas mãos. Infelizmente com muitas lágrimas também por aqueles que já sofreram e passaram por situações as quais seria melhor não ter acontecido, pois esquecer, nunca mais.
Com ousadia, queremos construir um ‘porto seguro’ onde a vítima e  familiares atingidos indiretamente por este mal, possam receber apoio e ter onde falar de suas dores, angústias e marcas causadas pelos algozes e também doentes assediadores.

Provisoriamente, até que dentro em breve tenhamos um espaço onde possamos nos reunir, este é o seu, o nosso espaço. Conte, compartilhe sua história conosco e vamos juntos, vislumbrar saídas para este túnel que parece não mostrar o seu fim.

Colegas de trabalho, sejam bem vindos! Temos muito que conversar.

Abraços,

Maria Grizante.


quinta-feira, 20 de outubro de 2011


SAÚDE MENTAL NO TRABALHO: 
Vamos falar de Assédio Moral?

Saúde Mental no Trabalho não é um assunto fácil ou que se queira abordar ou debater, até porque o tema nos remete a uma questão ainda mais profunda e este sim o principal promotor não da saúde, mas de doença no trabalho: o Assédio Moral. Este sim, um mal que vem sendo o responsável por afastamentos no trabalho, muitas vezes sem que o diagnóstico seja claro ou preciso tanto para o médico que assiste (muitas vezes um generalista) quanto para o próprio trabalhador. Reconhecer que a dor abdominal, a insônia, a consequente irritabilidade, dores de cabeça, a desmotivação e isolamento, as crises de choro, o abuso e consequente dependência de álcool e drogas, problemas cardíacos e respiratórios, a mudança de comportamento, a perda da voz, a depressão, a síndrome do pânico, entre outros sintomas podem estar diretamente relacionados ao Assédio Moral no trabalho. Um mal que adoece silenciosamente e que expõe os equívocos nas relações de trabalho e a comumente fragilidade do trabalhador frente a situações de humilhação sofrida em sua jornada de trabalho com superiores hierárquicos ou com o próprio colega de trabalho.

A questão do Assédio Moral vem ganhando notoriedade como doença do trabalho e um problema de saúde pública a partir de pesquisadores que ousaram dizer que esta prática adoece sim o trabalhador inclusive provando com suas teses, os males por vezes irreversíveis e danosos ao trabalhador vítima deste abuso nas relações de poder. Entendendo também como uma questão de violência, uma vez que fere a dignidade do trabalhador em sua moral, alguns trabalhadores, muito timidamente buscam respaldo judicial e com um B.O. (boletim de ocorrência) nas mãos, processam seus algozes por danos morais, com jurisprudência inclusive, tanto no setor privado, quanto público, no terceiro setor e sindicatos, sem que seja, contudo notícia nas mídias, pois é admitir a falência do sistema perverso em que vivemos: a vítima é execrada e o “algoz”, enaltecido.
Duplamente adoecido e com agravantes de ter que procurar ajuda de profissional específico – médico psiquiatra e psicólogo – a discriminação e o preconceito assumem contornos inimagináveis. Apelidos e piadas absolutamente dispensáveis, a discriminação e o preconceito pelos seus pares quando afastado do trabalho, podem levar a perda do emprego e, sem nenhum exagero, o sofrimento mental causado pelo Assedio Moral pode levar desde sentimentos de vingança até ao suicídio.

Por tudo isto e muito mais é que este tema merece ser refletido e debatido com seriedade por toda a sociedade, vislumbrando um compromisso de ao menos minimizar ou quiçá extinguir o sofrimento mental causado nas relações de trabalho. Que todos sejam de fato parceiros e colaboradores, entendendo que ora você é/está gestor, ora você é colaborador/trabalhador sem que isso o torne mais ou menos importante no processo de produzir ou prestar serviço. A palavra-chave é Respeito!



Maria Grizante. Assistente Social-Sanitarista. Trabalhadora. Promotora de Ações Inclusivas.