O que dizer da sobrevivente da caixa de Pandora: a esperança? Tenho dúvidas! E se ficou na caixa, deve tirar um bom cochilo de vez em quando, deitada no sofá da sala assistindo à reprise de Lagoa Azul. Ou saiu com as amigas para o “shopping” a olhar vitrines e, não resistindo os apelos da liquidação, caiu no lugar comum e, consumiu.
Divagações à parte acerca de programas televisivos ou das inúmeras possibilidades num mundo fútil, vaidoso, consumista e individualista em que vivemos, onde por vezes duvidamos de que habitamos entre pares, humanos, consideremos a existência desta por vezes arredia virtude, mas que nos impulsiona a continuarmos vivos e... Acreditando. Sim, crendo na possibilidade de que estes seres dotados de razão, sensibilidade, emoções, paixões, fé, amor entre tantas outras virtudes, ainda conte com a esperança de dias e seres humanos melhores. Como disse Morgan Freeman no filme Um Sonho de Liberdade: “ter esperança pode ser algo perigoso”. Não para o obstinado sonho de liberdade do colega encarcerado e inocente.
Não são raras às vezes em que nos sentimos encarcerados a situações a que a vida no mundo do trabalho nos submete e, por temermos um mal maior, trancafiamos em nossas “caixas” particulares, a Esperança. Tememos qualquer possibilidade de exposição, seja no lugar de vítima assumida do assédio, seja no lugar ainda mais delicado que é o de testemunha. Nos submetemos as vaidades, a abusos de poder e a toda sorte de situações e comportamentos que nos fazem sentir como que se estivéssemos fora de contexto, ou no lugar, na hora, no momento e até na profissão errada. Deixamos que nosso sonho de liberdade seja transformado em pesadelo escravo, num viés de um crime que não cometemos. O delito de sermos exatamente o que somos: pessoas dignas e por isso, incomodamos.
Quando lemos o texto sobre O Assédio Moral Institucional e a Dignidade da Pessoa Humana, logo pensamos na associação metafórica com a caixa de Pandora. Na verdade não na caixa propriamente dita, mas na virtude que nela restou, a Esperança.
Quando pensamos que já vimos e ouvimos de tudo acerca do assédio moral e seus efeitos a nossa saúde física e mental, surge esta forma ainda mais vil de assediar o trabalhador: a modalidade institucional. Não é novidade que as chefias, líderes, encarregados, gerentes e diretores ajam exatamente de acordo com o que a política da empresa espera deles: que defendam os interesses da mesma em detrimento do adoecimento através das formas sutis, outras nem tanto, de assédio moral. A justificativa para o assédio moral no setor privado é a produção. Que por sua vez é gerador de lucro.
Mas, e no setor público, onde a produção é o atendimento com qualidade à população, onde em tese somos ‘servidores’? E se servimos com o diferencial de que não fazemos parte de uma linha de produção, porquanto são vidas e não máquinas, peças ou ferramentas, porque somos tão execrados, desvalorizados e rechaçados pelos governantes?
Entra governo e sai governo e continuamos na expectativa de que um novo ‘salvador da pátria’ há de nos redimir do mal que não cometemos. Digo que escolhemos por sacerdócio, o de servir. Orgulho em Ser Servidor. Ou como intitula este blog: Servidor Sem Dor! Que ao pé da letra é exatamente assim que queremos servir, sem dor. Ao menos é o que pretendemos, na medida em que externamos o que pensamos, estamos nos ‘medicando’, fortalecendo nossas defesas e criando imunidade contra a moléstia ou a peste humana silenciosa que nos assola, o assédio moral. O ‘salvador ou salvadora’ é a nossa auto estima resgatada das garras da depressão e da síndrome do pânico, adquiridas através de cruéis rótulos que nos imputaram e atribuíram.
Emprestando a frase de meu amigo filósofo: “não façamos onda neste lago”. Tarde demais, não só fizemos onda como até nos arriscamos pegar prancha e ‘tirar onda’. Fomos salvos pela cordinha amarrada ao tornozelo, que nos leva de volta a praia real. Sem o Tim Robbins contracenando conosco, mas com sonhos a nos mover, tal como o seu personagem. Teimosos, seguimos renovados com a força da Esperança.
Esperança de que “dias melhores pra sempre”, nos alcance, e que não seja apenas trecho de uma canção. Onde nem o desolador contexto, onde a desvalorização, o desrespeito e o assédio moral em sua versão já conhecida e, agora institucional nos façam recuar ante as investidas de velhos e novos algozes de plantão. Mas a busca incansável pela dignidade seja nossa premissa de vida. Que a esperança nasça e renasça em cada um de nós com o firme propósito de alcançarmos justiça social, com a valorização que tanto almejamos o reconhecimento a que fazemos jus e a inclusão de fato e de direito. Não como algo divino ou sobrenatural, classista ou proselitista, político partidário ou apartidário, mas como algo significativo para seguirmos fazendo o que sabemos fazer de melhor: SERVIR. E SERVIR COM DIGNIDADE!
Definitiva e seguramente, o que nos restou por herança de Pandora é a Esperança.
LEI PARA FAZER VALER O RESPEITO E A DIGNIDADE DO TRABALHADOR:
O parágrafo único do projeto de Lei nº 425/99 “considera assédio moral todo tipo de ação, gesto ou palavra que atinja, pela repetição, a auto-estima e a segurança de um indivíduo, fazendo-o duvidar de si e sua competência, implicando em dano ao ambiente de trabalho, à evolução da carreira profissional ou à estabilidade do vínculo empregatício do funcionário, tais como: marcar tarefas com prazos impossíveis, passar alguém de uma área de responsabilidades para funções triviais, tomar crédito de idéias de outros, ignorar ou excluir um funcionário só se dirigindo a ele através de terceiros, sonegar informações de forma insistente, espalhar rumores maliciosos, criticar com persistência, subestimar esforços”.
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